O governo da Itália confirmou nesta sexta-feira (6) que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e os irmãos Eduardo e Carlos Bolsonaro tiveram a cidadania italiana reconhecida 58 dias após apresentarem a documentação à Embaixada da Itália em Brasília. Os dados foram confirmados pela Folha de S. Paulo. A informação levou a oposição ao governo de Giorgia Meloni a anunciar um pedido de investigação judicial sobre possível tratamento privilegiado à família do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Por que o caso ganhou repercussão

A rapidez do procedimento passou a ser questionada depois que Flávio usou o passaporte italiano para deixar o Brasil, após a derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial de outubro. Segundo a reportagem, o senador viajou primeiro para a Argentina e depois seguiu para os Estados Unidos. Na disputa, ele perdeu para Lula por mais de quatro milhões de votos.

As explicações foram dadas no plenário da Câmara dos Deputados da Itália pela subsecretária de Relações com o Parlamento, Matilde Siracusano, em resposta a um requerimento do deputado Angelo Bonelli, da Aliança Verde e de Esquerda. Ela negou irregularidades e afirmou que os documentos estavam completos e atendiam às exigências legais da época.

Cronologia apresentada pelo governo

Segundo a cronologia divulgada pelo governo italiano, os primeiros pedidos foram feitos antes da derrota de Jair Bolsonaro na eleição presidencial de 2022. Eduardo entrou na lista de espera da embaixada em dezembro de 2020. Flávio e Carlos fizeram o mesmo em outubro de 2021.

Em novembro de 2022, poucos dias após a vitória de Lula, os três foram convocados a apresentar a documentação exigida para o reconhecimento da cidadania por descendência italiana. O processo foi concluído em 5 de janeiro de 2023, quatro dias após a posse do novo presidente e três dias antes dos ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília.

Os 58 dias correspondem ao intervalo entre a entrega formal dos documentos e a conclusão da análise. Contando desde a entrada na lista de espera, o trâmite levou cerca de dois anos para Eduardo e pouco mais de um ano para Flávio e Carlos. Siracusano disse que os pedidos foram analisados em conjunto porque os irmãos descendem do mesmo antepassado italiano, procedimento que a embaixada considera habitual. O reconhecimento seguiu as regras de cidadania por descendência vigentes em 2023, antes das restrições aprovadas pelo governo italiano em 2025.

Oposição quer apuração

Para Bonelli, as explicações não esclarecem por que os irmãos concluíram o procedimento em prazo menor do que o enfrentado por muitos descendentes de italianos. Em alguns consulados italianos no Brasil, segundo ele, os requerentes chegavam a esperar dez anos antes das mudanças na legislação.

O parlamentar afirma que é preciso verificar se houve prioridade na convocação dos filhos de Bolsonaro ou alguma interferência política para acelerar a análise. Durante a sessão, ele também citou a proximidade da família com Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro e líder do partido Liga. Segundo a reportagem, Flávio participou de um evento da Liga na Itália em 2025 e recebeu, durante a campanha presidencial brasileira, manifestações públicas de apoio de Salvini.

Após a resposta do governo, Bonelli disse que recorrerá à Justiça para pedir a apuração de eventuais favorecimentos ou pressões sobre os responsáveis pelo processo consular. Até o momento, não foram apresentadas provas de interferência política na tramitação dos pedidos. O governo Meloni sustenta que o reconhecimento foi regular, e a abertura de uma investigação dependerá da análise da denúncia anunciada por Bonelli.