A relação de dependência entre Brasil e China na soja enfrenta riscos, segundo reportagem do g1. Acordos entre Pequim e Washington e os planos chineses de autossuficiência produtiva desafiam o setor brasileiro, que é o maior fornecedor do grão ao país asiático.
Por que a relação está sob pressão
Segundo o g1, a China se comprometeu a comprar 25 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos por ano entre 2026 e 2028. O acordo foi anunciado em maio, após o presidente Donald Trump voltar de uma cúpula em Pequim.
A reportagem informa que, em resposta às tarifas americanas, a China passou a cobrar um imposto adicional de mais de 20% sobre uma série de produtos, incluindo a soja. Pela avaliação da Associação de Soja dos EUA citada pelo g1, o grão norte-americano ficou consideravelmente mais caro que o produzido na América Latina. As exportações dos EUA para a China caíram 50% em um ano.
Em setembro, os dois países acertaram a redução de tarifas sobre US$ 60 bilhões em mercadorias. A soja ficou de fora e manteve tarifa de 13%, enquanto a soja brasileira paga 3%. Para Patrícia Ellen, líder global de Natureza e Sistemas Alimentares da Systemiq, essa diferença ajuda a preservar a competitividade brasileira, pelo menos no curto prazo.
Plano chinês e projeções até 2030
O Plano Quinquenal da China prevê autossuficiência produtiva e menor consumo de farelo de soja. Segundo projeções da Systemiq citadas pelo g1, as importações chinesas de soja podem cair cerca de 25% até 2030, o que equivale a 23,5 milhões de toneladas.
De acordo com a reportagem, a participação do farelo de soja deve cair de 14,5% para menos de 10% até 2030. A China também pretende usar mais aminoácidos sintéticos e proteínas produzidas por bactérias na alimentação animal, além de tornar a criação de bovinos e frangos mais eficiente.
Para o presidente da Aprosoja-MT, Lucas Costa Beber, o maior risco está na baixa taxa de natalidade chinesa, que pode reduzir a demanda por soja. Ele também citou o sorgo, grão cada vez mais usado na alimentação animal na China e que concorre com o farelo de soja.
Caminhos apontados por especialistas
Em 2026, o Brasil já enviou quase 64 milhões de toneladas de soja ao mercado chinês, segundo a Aprosoja citada pelo g1. A especialista Larissa Wachholz afirmou que o crescimento das vendas gerou renda no interior e sustenta uma parcela relevante do PIB brasileiro.
Os especialistas recomendam que o setor se prepare para uma possível redução das exportações, evitando ampliar a área plantada e investindo em processamento para agregar valor. Segundo o g1, Wachholz sugere ainda ampliar usos da soja, como biocombustíveis e óleo, e buscar parcerias tecnológicas com a China. Beber vê oportunidades na Índia, onde o crescimento populacional pode elevar a demanda por proteínas.
"A relação da China com os Estados Unidos é a relação geopolítica mais importante que existe hoje", disse Larissa Wachholz à reportagem do g1, ao avaliar que Pequim pode usar as compras como instrumento de negociação.